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CONTOS

AVÓ PRÓDIGA - Conto

AVÓ PRÓDIGA - Conto

Atarogildo não dera pra nada na vida. De tudo tentara: entregador de remédios da Farmácia 9 de Julho a picolezeiro da Sorveteria Jundiaí. Quis ser sapateiro, sem sucesso, e até como cortador de cana tentou se empregar. Por fim, resolveu estudar música, profissão que, no seu entendimento, mais se assemelhava a seu jeito de ser e que lhe permitiria, sonho sagrado, continuar vagabundeando, mas fantasiado de trabalhador. Nessa empreitada, engasgou-se com um sustenido, vomitou um mi bemol e até hoje procura uma partitura para nela depositar seus sonhos de músico. Tudo insucesso, tudo em vão.
- Bem feito pra você, Gildinho. Eu sempre lhe disse para estudar mas você nunca quis escutar sua velha mãe – dizia-lhe, diariamente, Berta Lavadeira.
Dona Berta, embora sem culpa no cartório, vez por outro se flagrava assumindo a culpa pelo fracasso de sua cria. De uma coisa, ela não podia reclamar: o seu Gildinho, tão incompetente pro trabalho, mostrava-se um ás quando o assunto era fazer menino. Só em Jeriguá da Barra Funda já lhe presenteara com sete netinhos, de cinco mulheres diferentes. Isso tudo sem contar a fabricação independente nas redondezas, de que se perdera a conta.
Não se sabe se por isso, mas Atarogildo era feliz, vivia a arrotar alegrias pelos quatro cantos da boca e pelos arredores da alma. De vez em quando assumia sua total inutilidade:
- Minha vidinha ‘tá tão boa, mas tenho que tomar um jeito e arranjar qualquer coisa pra fazer, pra acabar de vez com essa minha vadiagem. Já ‘tô morto de cansado de tanto não ter o que fazer – cochichava de si para si.
Foi aí que surgiu a idéia genial: candidatar-se a uma vaga de Vereador. Dinheiro fácil, pouco trabalho. Não em Jeriguá da Barra Funda, onde todos lhe conheciam e sabiam de seu pouco apego ao trabalho. Certamente teria apenas dois votos naquela cidadezinha, o seu e o de Dona Berta, insuficientes para elegê-lo. Foi ao mundo e filiou-se imediatamente ao Partido do Coronel Feliciano Torreão, na cidade vizinha de Taguará da Serra e partiu em campanha, não sem antes transferir o título eleitoral de sua mãe para aquele novo reduto, prestes a se transformar em metrópole, fosse o nosso Gildinho eleito, como esperava.
E tome promessa:
- O povo daqui agora vai ver o que é um político sério. Pense num Vereadorzinho trabalhador, que só pensa em trabalhar em prol do povo de Taguará da Serra. Estou aqui para trabalhar – alardeava em comícios
Na campanha, cansou de carregar menino cagado no colo, ficou rouco de tanta promessa mentirosa, acabou solas e solados de alpercatas num corpo-a-corpo danado. Dentaduras e tijolos ficaram apenas na promessa, que ele não tinha dinheiro pra isso. Mas prometeu. Pena que se a mentira tem pernas curtas, a verdade mais curtas ainda as tem: o povo de Taguará conhecia a fama do pretenso Edil e ao final da apuração restara-lhe um mísero voto: o seu. De nada valera as vãs promessas de campanha. Que aquele povo não era besta ele já sabia, mas julgava que fosse um pouco mais do que realmente era.
Sua mãe, ao ser reclamada por não ter-lhe dado o voto, fechou os olhos e com a doçura que só as mães tem, com a ternura própria dos que amam, disse-lhe baixinho, para que ninguém, além dele, escutasse:
- Meu filhinho querido, preste atenção: se o povo, que não te conhece direito, não votou em tu, imagina eu que te conheço desde pequeninho e sei de tuas safadezas desde que tu nasceu. Fique com raiva deu não, mas eu votei foi em Seu Biu da Farmácia.
Gildinho apanhou os cacos de uma cédula eleitoral, nela riscou um ‘X’ ao lado do nome do Coronel Feliciano Torreão e desapareceu de Taguará da Serra. Além de seu único voto, depois se soube, restaram mais dois netinhos para Dona Berta.
Berta lavadeira, avó pródiga, depositou sua última lágrima numa seção eleitoral da Cidade, enxugou-a com o santinho de Atarogildo e nunca mais quis ouvir falar de eleições: fora-lhe cassado o mandato da alegria. Fechar

DAGÔ E SULA: ESTRUPÍCIO ATRÁS DA IGREJA - Conto

DAGÔ E SULA: ESTRUPÍCIO ATRÁS DA IGREJA - Conto

Dagô tinha quase dois metros de comprimento, guarda-roupa compatível para acomodar tanta tabaquice. Foi por isso, pelo abestalhamento além da conta, que a Nega Sula, bonita e reboculosa, se desengraçou daquele cabra roliço e mal-acabado. Dinho, não: o que tinha de amarelice e pequenez tinha, inversamente proporcional, de malandragem: um metro e sessenta da mais pura saliência e safadeza.
Dagô era como alguns poucos chamavam Dagoberto, filho do chapeado Rigoberto com a costureira da cidade, Dona Zuleide. Dinho era Raimundo, nascido e criado na Fazenda Maculelê, do Coronel Zeca Florêncio. Não me perguntem quem era seu pai que serei forçado a dizer que talvez fosse o próprio Coronel, como asseguram as manicures e outras más línguas das redondezas. Mas certeza, que é bom, ninguém tinha. Muito menos ele, embora tivesse uma parecença muito parecida com o tal do Coronel. Sabe-se, apenas, que o Coronel nutria uma certa simpatia pela mãe de Dinho, moradora de sua fazenda. Mas isso não vai ao caso.
Na quermesse do mês de maio, depois de uma misturada de vermute com cachaça, Dinho criou coragem e resolveu conquistar Sula que, benditas sejam as coincidências, também estava muitíssimo interessada naquele cabra pequeno. Daí para o escondidinho atrás da Igreja, bem debaixo do pé de juazeiro, foi um minuto que não demorou mais que um segundo. Bem mais que de repente, estava lá o casal num abufelamento tão da bixiga lixa que não dava pra distinguir os possuídos de um e de outro. Dinho com sua amarelice e safadeza; Sula com todas as suas prendas: peitos grandes, beiços carnudos e morenice provocante. O amorçegamento era tão grande, saliências e reentrâncias tão próximas, que sequer perceberam o estrupício que estava por acontecer. Dagô, capiongo e injuriado pelo fora que levara de Sula, era um poço de macambuzice. Vivia a perseguir-lhe por todos os caminhos, como que a dizer ‘não é minha, não será de ninguém’. Chegara a estar no mesmo local com ela, numa noite de um fevereiro beirando as chuvas de março, mas parece não ter sabido aproveitar as delícias do lugar, da nega e da ocasião. Agora, ali, o instante oportuno para resgatar a honra perdida com os nãos daquela Sula tão banqueira e cheia de faceirice.
- Raimundim, cabra safado, seu fí d’uma égua, solta essa nega que agora ocê vai se abufelar é mais eu. Agora ocê vai ver o que é quiprocó, o que é fuzuê, e essa nega vai aprender a respeitar os sentimento que eu sinto por ela. É hoje que vai voar caco de cabra safado pra tudo que é lado e esse fí de quenga vai ver com quantos tabefe se faz um resto de home.
Raimundinho, no susto, ainda cogitou em dar um catiripapo em Dagô, se escafeder no oco do mundo, mas viu que não era um bom negócio medir forças com um Golias, sendo ele apenas aquele pequeno Davi. Um cangapé só de Dagoberto podia desmontar todo seu esqueleto, esquartejar sua alma e ele preferia que ela chegasse inteira no céu, sem escoriações. Assim, aos poucos, foi se desapregando da nega e a nega dele, ganhando tempo, aprumando as idéias e, não se sabe como nem de onde, ainda arranjou coragem para falar grosso com o rival:
- Óia aqui, Dagô, deixe de ser maldoso. Nóis num tava fazendo nada demais não, visse? Nóis tava só proseando ...

O tratamento indevidamente íntimo – pouco o tratavam por Dagô, ajuntado com o descaramento de Raimundinho, deixou Dagoberto ainda mais furioso. O cabra grande fungou, botou “fogo” pelas ventas, ciscou metro e meio de terra mas, no ferver da ira, perdeu Raimundinho. O cabrinha, tão pequeno quanto ligeiro, escapuliu numa carreira tão desabalada que levou consigo, no bolso da camisa, uns dois quilos de areia, resultado da poeira levantada. Despinguelou na estrada do mundo. Dizem, à boca pequena, que ele hoje é ‘seu’ Raimundo, dirige um táxi no Bexiga, em São Paulo, presente de uma coroa italiana que não resistiu aos seus encantos de cabra pequeno e enxerido.
Quanto a Dagoberto, com Raimundinho longe e, literalmente, sem concorrente à altura – 2 metros de altura é altura pra homem nenhum botar defeito, conseguiu casar com Dona Sulamita, com uma condição por ela imposta:
- Nosso primeiro filhinho vai se chamar Raimundo, viu meu “Dagosinho”?
Dagoberto não entendeu muito bem essa exigência da noiva mas não relutou um minuto sequer em aceitá-la. E era besta o Dagô? Numa quarta-feira de cinzas, nasceu Raimundinho: amarelinho e mirrado, saliente, com uma carinha de safado que só vendo... Coronel Zeca Florêncio foi o primeiro a visitá-lo, serelepe e fagueiro. Parecia um avô.
(Inspirado numa história de Mané Brito) Fechar

DAS DORES DO ZÉ - Conto

DAS DORES DO ZÉ - Conto

(Conto Premiado no 4° Concurso de Contos Luis Jardim, Promovido pela PCR – 2006)
O sol já andava meio empoeirado nas prateleiras do céu, tamanha a duração de suas férias por conta da invernia. São Pedro resolvera abrir as comportas do seu açude superior sem dó nem piedade. Valera a pena tanto pé inchado em procissão e novena, de igrejona a capelinha, tanta promessa pelo aguamento daquele sertão. O desatarraxador das torneiras celestiais adotou a providência, de forma exagerada, é verdade, ainda que tardiamente. Zé, impaciente, pouco antes desse caimento d’água, itapemirinou-se.
Das Dores sabia que o seu Zé partira pros São Paulos ilusórios da vida por causa da chuva, ou, melhor dizendo, por falta dela. Lá podia até não chover, mas tinha uma tal de garoa que garantia emprego pra gente chegada do Nordeste. E aí, era encofrizar uns trocados, pegar o mesmo ita de volta e juntar os molambos, cuidar da roça de jerimum e fabricar, em sociedade com ela, de 7 a 8 bruguelos. Guardaria sua donzelice juramentada, de firma reconhecida em cartório, para a autenticação de seu amado, primeiro e único tabelião daquele amor.
Zé, ao chegar em Sampa, descobriu-se ‘gostadozim’ de namorar e, foi-não-foi, se flagrava exímio apalpador das regiões sentadeiras das moças da Capital. De pouquinho em pouquinho, ia se esquecendo das dores e de Das Dores, pois, como se sabe, não há remédio melhor pra se esquecer um amor do que um outro amor toc-toqueando na porta.
O Zé besta do Riacho das Pedras tinha se convertido em ‘seu’ José e passava os dias a apertar pitocos num elevador da Avenida Paulista, subindo e descendo, descendo e subindo. Seu palavrear já estava mais apaulistado do que o de muita gente que lá nasceu: as portas eram ‘porrtas’, sempre ‘aberrtas’ que fechadas não tem ‘erres’. Gostava de anunciar aos passageiros:
- ‘Terrceiro andarr’.
Até farda, com direito a quepe e tudo, o danado tinha, sem contar a carteira assinada e o Pis/Pasep. Poderia voltar nas férias (até isso ele tinha), mas voltar pra quê? Até torcedor do “Curintia” já era.
Ademais, sua rotina de 12 horas de trabalho era compensada pelo debruçamento disfarçado que fazia no avarandado dos decotes das moças paulistas e pela gratuidade na admiração da redondice de coxas tão fartas que se espremiam no sobe-desce do quartinho passeador que Zé garbosamente comandava.
Na cumeeira do juízo de Das Dores perambulava a esperança da volta, embora a tempestade de cartas dos primeiros meses tivesse se convertido, ao longo do tempo, num chuvisco de bilhetes, numa neblinazinha de quase nada até se tornar estiagem das brabas, sem direito a uma letrinha sequer. Muito menos um alô, que alô era coisa de cidade grande feito Quixeramobim ou Itapipoca, não tinha chegado ainda àqueles cafundós. Mas ela não perdia a esperança, e se perguntava, de Das Dores para Das Dores:
- Será que o danado do Zé volta? Acho que volta que meu Zezim num é homi de duas palavra. Se ele disse que vinha, tem fé em Deus que, quando eu menos esperar, Zé desembucha no meu terreiro. Tem fé em Deus!
De joelho arroxeado de tanta reza enfrente ao oratório, Das Dores se perguntava e a cada não-resposta, mais fazia jus ao nome que recebera quando novinha na Igreja Matriz de Riacho das Pedras. A Corte Celestial já ‘tava de saco cheio com sua insistência.
Um fim de tarde, quando a lua preguiçosa brincava de esconde-esconde com um rebanho de nuvens tangido pelo vento, Das Dores escorregou numa casca de tristeza e, desequilibrada na ladeira da solidão, foi encabrestada pelas águas saudosas da Mata Fechada até o rio das Piabas e dali arrastada até não-se-sabe onde... De ‘seu’ José, soube-se que foi demitido de sua função de ascensorista por não ter resistido aos bens e utensílios escondidos sob a mini-saia cor de abóbora da moça do ‘quarrto andarr’. De Das Dores, não se teve mais notícias. Do Zé, muito menos... Fechar




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